5 de jan. de 2011

O CANDOMBLÉ E A OCIDENTALIZAÇÃO

Umbanda e candomblé na europa

Pais-de-santo profissionalizam os rituais afros e expandem a prática pelo Velho Continente

Carina Rabelo
Comportamento
Umbanda e candomblé na europa
Pais-de-santo profissionalizam os rituais afros e expandem a prática pelo Velho Continente

Carina Rabelo, de Berlim (Alemanha)
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Desde que foi convidado, há 19 anos, para ministrar aulas de dança afro numa escola em Berlim, na Alemanha, Murah Soares, 38 anos, criado e iniciado num terreiro de candomblé na Bahia, é surpreendido por alunos que lhe pedem a bênção após as coreografias. Daí nasceu a convicção de que tinha um terreno fértil para difundir sua crença entre os alemães. Em 4 de dezembro de 2007, Murah oficializou o Ilê Axé Oyá, o primeiro terreiro de candomblé na Alemanha com as bases religiosas do Brasil. Em julho deste ano, ele foi reconhecido oficialmente após a bênção da Mãe Beata, de Nova Iguaçu (RJ), uma das mais respeitadas do Brasil. Assim como Murah, muitos pais-de-santo e mães-de-santo escolheram a Europa para desenvolver e plantar o culto aos caboclos e orixás.
A receptividade dos europeus à diversidade de manifestações culturais e religiosas é fomentada pela presença maciça de imigrantes no Velho Continente. Segundo a Eurostat, comissão que divulga as estatísticas da Europa, em 2007 o continente tinha mais de 1,8 milhão de imigrantes legais, o triplo de 1994, quando eram 590 mil. Diante do desafio de dialogar com a pluralidade cultural que invade as ruas, a Europa revela um interesse crescente pela diversidade, pelo exótico, pela identidade e pela religião das outras nações.
Em 1974, de carona na onda do esoterismo, surgiram os primeiros terreiros de umbanda e candomblé na Europa, ainda reduzidos às práticas de magia. A partir do sucesso internacional dos trabalhos do fotógrafo e escritor francês Pierre Verger, pilar da difusão do candomblé pelo mundo, começaram os festivais multiculturais e de fomento ao intercâmbio de estudantes e pesquisadores entre Brasil e Europa. Assim, a dança e a musicalidade dos cultos afros se tornaram o ponto de partida para o interesse pela religião.
“Na Europa, há mais tolerância do que no Brasil, onde os cultos ainda sofrem os ataques dos evangélicos. Na Alemanha, ela é vista com respeito, admiração e curiosidade”, diz Murah, que também é presidente da ONG Fórum Brasil, que promove a difusão da cultura brasileira através de workshops e seminários. O Ilê Axé Oyá, em atividade há seis anos, reúne 300 alemães e imigrantes nas festividades religiosas.

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Enquanto o candomblé e a umbanda se popularizaram no Brasil pelas magias, curas e benefícios imediatos, os europeus se interessaram pelo aspecto antropológico dessas religiões. “Os europeus têm curiosidade pelos fundamentos teóricos e a história dos cultos. O que os motiva também na iniciação é a resposta imediata na comunicação com as entidades, o que não ocorre nas demais crenças. Eles sabem que o orixá está ouvindo”, comenta o pai-de-santo italiano Mário Quintano, 40 anos, presidente da Associazione per la Diffusione del Candomblé, na Itália. Após a iniciação no Brasil, Mário se mudou para Arborio, na região do Piemonte, onde administra há oito anos o terreiro de candomblé Ilê Asé Alaketu Ayrá.
No Velho Mundo, algumas adaptações devem ser feitas para garantir o bom convívio com a comunidade local. Áustria, Alemanha e Suíça, por exemplo, rejeitam a centralização do comando religioso numa única figura. “Procuro diminuir a hierarquia no meu terreiro para que todos se sintam incluídos e conscientes do que ocorre lá”, comenta a psicoterapeuta austríaca Astrid Habiba Kreszmeier, 44 anos, que adotou o nome Habiba de Oxum Abalo, após ser iniciada no Brasil pelo pai-desanto Carlos Bubby, em São Paulo. Há dois anos, Habiba fundou o terreiro Terra Sagrada na cidade de Graz, na Áustria, com filiais na Suíça, em Zurich, e na Alemanha, em Landsberg.
Entre as adaptações estão as modificações no culto, que devem estar de acordo com a legislação européia (leia quadro). Thales Fonseca, 29 anos, que se intitula Comandante Chefe do Terreiro Umbanda Temple, fundado em maio de 2007, em Londres, na Inglaterra, reconhece a rigidez das leis e considera algumas delas benéficas para a religião. “Aqui, se alguém discrimina o outro pela fé, vai parar na cadeia. A ação da polícia é muito rápida para coibir a intolerância religiosa.” Criado por uma fervorosa evangélica e freqüentador assíduo dos cultos protestantes, ele recebeu críticas quando decidiu ser iniciado na umbanda aos 15 anos. “As entidades disseram que eu deveria trazer a religião para os ingleses, que estão carentes de um trabalho espiritual gratuito. Foi quando descobri o meu caminho”, afirma.
Pesquisadores da religião reconhecem a expansão dos cultos afros na Europa, mas são reticentes em considerar que o interesse dos europeus tem um engajamento verdadeiramente religioso. “O candomblé e a umbanda são tão curiosos para eles como a capoeira, os atabaques e a dança folclórica. É um interesse pela diversidade cultural, como ocorre com a world music. Teriam a mesma empolgação pela manifestação cultural dos aborígines australianos, por exemplo”, pondera o sociólogo Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo. Com ou sem legítimos praticantes, o fato é que o candomblé e a umbanda já não são mais vistos como “macumba” no Velho Continente.

21 de dez. de 2010

Alagoas se diferencia na disseminação da cultura afrodescendente no Brasil

Encontros reluzem a diversidade da cultura afro
Encontros reluzem a diversidade da cultura afro (Foto: Thiago Sampaio )
A influência da cultura afrodescendente oriunda da vinda de negros escravos que vieram para o Brasil trouxeram enormes bagagens culturais, como a arte, gastronomia e a religião, além de usos e costumes com linguajar próprio, ritmos e vozes. E Alagoas não foi diferente.

Porém, há uma singularidade que transformou a Terra de Zumbi dos Palmares como ponto inicial para a disseminação da cultura afro em uma de suas vertentes para outros estados do país. A informação é do historiador, pesquisador Célio Rodrigues, o “Pai Célio”, um dos grandes difusores da religião de matriz africana no Estado.

“Com o fenômeno ocorrido em 1912, conhecido como o ‘Quebra’ em que os praticantes de religião de matriz africana foram expulsos do Estado, o grupo étnico africano da Nação Xambá se ramificou por vários Estados do Nordeste, principalmente em Pernambuco”, informa Pai Célio.
“Mas o primeiro estado em que os xambás se instalaram foi Alagoas direto do continente africano, daí a singularidade”, completa.

De acordo com Célio, atualmente pouco mais de 30 terreiros em Maceió ainda conservam a prática xambá.

O “Quebra” foi um fenômeno extremamente violento ocorrido em 1912 quando as várias vertentes de manifestações religiosas de matriz africana sofreram terríveis perseguições.

No caso da nação Xambá, apesar de os orixás serem praticamente os mesmos do camdomblé, existe bastante diferença na forma de culto.
Na nação Xambá, os toques sempre são as 16h da tarde. Em todos os toques é servido aos filhos de santo da casa e aos convidados um café com manguzá, que é tradição da casa.

Em relação aos que visitam os cultos, não é o uso de roupas pretas e o homem deve se vestir de calça (nunca bermuda, short ou camiseta regata).

Um dos mestres da nação xambá na época era Artur Rosendo Pereira, natural de Maceió, que foi iniciado pelo Mestre Inácio, tendo ido à Costa da África buscar os Axés, em Dakar, no Senegal. Migrou de Alagoas para o Recife, no início da década de 1920, fugindo da perseguição aos terreiros alagoanos, introduzindo em Pernambuco, os ritos e tradições da Nação Xambá.

“Em verdade, 1912 é considerado uma diáspora do candomblé em Alagoas”, avalia Pai Célio.
Thiago Sampaio
O misticismo dos costumes ganha adeptos a cada dia
“Acredito que esse episódio realmente contribuiu para endossar a questão do preconceito em relação às religiões de matrizes africanas aqui em Alagoas. Mas se entendido na sua essência com estudo e verificando as raízes das práticas, o desconhecimento desapareceria e a visão deturpada daria lugar ao endendimento”, considerou a professora Clara Suassuna, coordenadora do Núcleo de Estudos Afros Brasileiros (Neab), da Universidade Federal de Alagoas.

“Se for compreendido como deve, as pessoas logo observariam que na essência, as manifestações de matriz africana - quer na religiosidade, na culinária ou em outros aspectos - dão valor à beleza, ao respeito aos idosos, aos direitos humanos, à vida”, complementa Maria Alcina Ramos, do Fórum da Diversidade também ligada ao Neab.